O ambiente familiar e a perspectiva de vida da criança

O meio ambiente em que a criança vive pode determinar as suas intenções para o futuro e até mesmo o aproveitamento de boas oportunidades. Do mesmo modo que crianças em “A invenção da infância” ambicionam um amanhã próspero e se preparam para isso, outras neste mesmo filme e em “Nascidos em Bordéis” não visionam nada além da vida que levam e que estão destinadas a ter.

Locais insalubres, luta pelo abastecimento de comida, falta de assistência social etc, se traduzem em falta de esperança, numa repetição de vidas escassas passadas de pai para filho. Logo no início da sua vida, a criança já sabe que tem responsabilidades, seja de cuidar da casa, da família, ou até mesmo trabalhar.

Nesses locais, a infância já se conjecturou assim, de forma que as crianças realmente acreditem que esse é o papel que devam desempenhar na vida. Algumas também não frequentam a escola, o que impede o desenvolvimento do raciocínio e a ampliação de horizontes.

Ou seja, se tudo que a criança vê é aquele local que ela vive, vai achar que a vida se resume a este bolha social, sem ansiar por nada diferente do que já conhece. E isso vale para todas as estruturas ambientais. Se uma criança de classe média a alta só frequenta escola e condomínio de luxo, como ela irá desenvolver um senso de sociedade integral? Por isso é tão importante a realização de projetos sociais, como o que Zana realizou com as crianças da Luz Vermelha. Através das fotos, passeios e estudos, elas puderem compreender o quão amplo são as coisas que ocorrem em seu próprio habitat, nos locais que visitaram e nas experiências que viveram, causando uma sensação leque de oportunidades.

A infância nos bordéis da Luz Vermelha

O documentário “Nascidos em bordéis” acompanha a infância de oito crianças (Avijit, Puja, Shanti, Kochi, Tapasi, Manik, Mamuni, Gour e Suchitra) que vivem na Luz Vermelha, local em que se encontram diversos prostíbulos na Índia, sendo o ambiente de criação delas. Através das gravações é possível verificar o amontoamento das famílias em um único cômodo, a falta de rede de distribuição de água e o uso deste mesmo espaço para realização dos trabalhos de prostituição.

Enquanto todo esse desarranjo acontece, as crianças são ordenadas de um lugar para o outro, conforme a necessidade das mães prostitutas e da família. Ora as mandam para laje para não atrapalhar o serviço meretrício, ora as mandam trabalhar para ajudar com a renda financeira.

Toda a movimentação da captação de clientes até o programa de fato é acompanhado pelas crianças, como uma prática normal, pertencente àquela realidade. As drogas e bebidas alcoólicas também são muito presentes, com público de todas as faixas etárias. Todos passam muito tempo juntos, compartilhando todo tipo de situação social.

Ao realizar o curso de fotografia ministrado inicialmente por Zana, é possível perceber o potencial de inteligência de cada criança, mesmo não frequentando nenhuma escola e sendo criadas sob educação familiar precária. Todas são capazes de desenvolver um bom trabalho com a câmera, do ponto de vista funcional e emocional.

Destaca-se também que, mesmo sob as condições citadas, essas crianças tem discernimento do que é bom e ruim, do que é correto e incorreto e manifestam querer uma vida melhor, porém não acreditam que podem. As mentes do ambiente familiar são tão restritas, que transpassam a impossibilidade de “ser gente” por toda a ancestralidade.

Através do projeto social fotográfico, as crianças tiveram sua autoestima reforçada. Grandes exposições foram realizadas e houve a valorização da arte realizada por elas, de modo a iluminar novas perspectivas no caminho dessas crianças. Uma delas (Avijit) chegou a viajar para Amsterdã em função da fotografia.

Depois de muito sacrifício e muita burocracia, Zana consegue o acesso a um bom internato para essas crianças e algumas delas nem chegam a ingressar por conta dos pais. Suchitra, por exemplo, foi proibida de ir para escola por sua mãe, pois já estava realizando as atividades da prostituição. Shanti deixou o internato por vontade própria. No final do documentário, as informações que se têm é que só três das oito crianças permaneceram na escola (Tapasi, Kochi e Avijit).

Podemos inferir, então, que, mesmo com todo o esforço de Zana para dar uma condição de vida melhor para aquelas crianças, em alguns casos o ambiente familiar pesou mais do que a formação de convicção do menor. Ou seja, a vivência naquele ambiente impactou muito no desenvolvimento da criança e nas suas escolhas de vida.

Escrito por Sarita Deoli

Baiana, advogada e estudante de Psicologia e Psicoterapia Holística. Criou o Trago o Sol em 2017 para conversar sobre as relações do ser humano consigo mesmo e com o mundo. Acredita no valor do autoconhecimento e do conhecimento em si. Tem mais esperança do que antigamente e insiste que não está aqui só de passagem.

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