Cuidado e afeto nos primeiros anos de vida

Quando falamos sobre o bem estar de uma criança, o primeiro fato a se pensar é sobre o cuidado com a mãe desde a concepção do feto. Essa mãe deve ter uma nutrição adequada e de evitar a contaminação com agentes patogênicos (vírus, drogas e radiações) (PAPALIA; FELDMAN, 2012). Além disso, deve ter acompanhamento médico adequado, cuidando de quaisquer condições que a mesma possua de natureza física ou mental.

A falta de zelo na gestação pode ocasionar a má-formação do bebê, causando complicações na gravidez, no nascimento e no desenvolvimento como criança e, em alguns casos, pode até mesmo resultar na morte. Charles Nelson III (2016), pediatra e neurocientista, ensina que:

Durantes os 9 meses de gravidez, o cérebro se desenvolve gradualmente até que, no nascimento, após uma gestação completa, ele seja parecido com o de um adulto, só que menor.

A questão é que, se o cérebro tem experiências positivas, cuidado e estímulo, por exemplo, linguagem e coisas do tipo, haverá mais possibilidades de seu desenvolvimento ser normal.

Mas se o cérebro for privado dessas experiências ou tiver experiências negativas, o desenvolvimento poderá ser anormal.

Com essa descrição, nota-se que a mãe precisa de uma rede de apoio para passar por esse momento tão complexo de sua vida. Ela carrega a responsabilidade de duas vidas, ao tempo que passa por inúmeras transformações hormonais e dificuldades comuns a este período, como fadiga, alterações de humor, fraqueza, tontura, náusea e constipação (PAPALIA; FELDMAN, 2012).

Essa necessidade de assistência persiste depois do nascimento da criança, já que a mulher passa pela fase puerperal, tão difícil quanto a gravidez, em termos hormonais; e também o cansaço oriundo da total dedicação a um ser totalmente dependente dela. Se não houver a dedicação de outras pessoas envolvidas na criação da criança, muito provavelmente ela ficará em falta de cuidado e atenção.

No documentário “O começo da vida”, Alison Gopnik (2016), psicológa e pesquisadora da Universidade de Califórnia, afirma que “o único modo de a criança atingir seu incrível potencial para o aprendizado e a exploração é ter uma equipe muito segura, estável e amorosa de cuidadores.” O desenvolvimento cerebral no período de zero a três anos depende tanto da genética quanto desse cuidado (ou falta dele) proveniente do ambiente.

Cuidado materno e paterno

Inicialmente, muito da criança pesa sobre a mãe porque ela que tem que passar pela gestação, amamentação e seus efeitos colaterais. O bebê encontra todo amor, conforto e segurança nessa mãe, sabendo exatamente o seu cheiro e batimento cardíaco, sendo a primeira referência de outro ser humano que o neném tem.

Já o pai, conforme leciona Vera Iaconelli (psicanalista e diretora do Instituto Gerar), demora um pouco mais de se sentir pertencente à situação de ter um filho, pois ele não tem as sensações físicas presentes na mãe. Mas ele tem um papel importante, que é o de mostrar ao bebê que existe um mundo lá fora além da mãe, que ele pode conhecer e se sentir seguro também. E, ao mesmo tempo, dar esse descanso merecido à genitora, para que ela volte aos poucos a sua realidade pessoal.

Da liberdade necessária à criança

Obviamente uma criança não é livre para fazer o que quer e nem se quisesse conseguiria. Mas a impressão que temos de que elas são totalmente incapazes nos leva a alguns erros que podem prejudicar a evolução e aprendizado desse ser.

As crianças na verdade são muito inteligentes e estão com o cérebro fervilhando em busca de conhecimento. Ainda é uma pretensão muito primitiva mas avançam muito rápido no que cabe à idade delas. Elas querem conhecer melhor o mundo então investigarão como o outro age, apurarão os sentidos, farão testes com os seus semelhantes e com os objetos que estiverem ao seu alcance.

Nesse sentido, é preciso dar o mínimo de liberdade para a criança se deslocar, manusear, testar e descobrir por si própria todo esse desconhecido. Os responsáveis não podem intervir nas atividades da criança com excessiva frequência, sob pena de prejudicar o desenvolvimento cognitivo dela.

Os pais, independente das condições financeiras que tenham, devem estimular a criança a brincar e conhecer o mundo. É preciso levá-la à natureza, criar jogos e recreações, apresentá-la utensílios divertidos, sem cobrar que a criança faça o que se espera. Ela está descobrindo, não há controlar as suas reações.

Dispositivos eletrônicos, aprendizado e afeto

É inegável a contribuição que a tecnologia trouxe às nossas vidas, mas em relação às crianças, questiona-se o poder de trazer algo maléfico para criança. Segundo Gopnik, os dispositivos só ofereceriam prejuízos quando impedem a criança de se relacionar com pessoas de verdade. André Trindade, psicólogo e fundador do Núcleo do Movimento, complementa que essa prática pode gerar uma “perda de observação e contato visual e do contato direto da criança”.

Nessa conjuntura, surge o papel dos pais e responsáveis de intervirem no uso da criança dessa tecnologia. Devem principalmente se policiar para não usar os eletrônicos como forma de próprio descanso, criando um péssimo hábito de manipular a criança ao seu bel prazer.

Da mesma forma, os adultos precisam observar a sua negligência com as crianças em detrimento do uso de smartphones. As redes sociais e aplicativos devem ser usados em horários que não se encontrem com aqueles de cuidado com a criança. Os filhos necessitam de cuidado e atenção, sob pena de se sentirem emocionalmente abandonados.

Da negligência e dos benefícios de investimento à criança

A negligência com os cuidados da criança começa do nível mais básico, que é o saneamento básico e a rede geral de distribuição de água. Somente o governo pode prover esse tipo de recurso, assim como a assistência social das crianças necessitadas.

A omissão também ocorre quando se deixa a criança viver em ambientes estressores, com quadros de violência e abuso de drogas, situações de pobreza extrema, lar desorganizado etc (SHONKOFF, 2016). Bem como, quando os adultos os tratamos friamente e sem amor, por problemas emocionais mal resolvidos deles mesmos. Pia Rebello, diretora da UNICEF, trata disso muito bem, quando no episódio “Infância Negada”, afirma:

Muitas vezes, enquanto sociedade, falhamos no apoio aos pais, pois não disponibilizamos a eles o apoio que precisam para os filhos. É aí que percebemos que um ambiente nocivo à criança começa a se formar.

É relevante que não se dissocie a criança do adulto, já que é impossível ajudar um sem ajudar o outro, já que o adulto é o intermediário do cuidado com a criança. Conforme diz Jack Shonkoff (2016), “crianças não são ajudadas por programas, mas por pessoas”.

Em grande parte da cultura atual, as crianças são responsabilidade dos pais ou responsáveis, com apoio do governo em último caso. Porém, deixar crianças a mercê do desamparo é um erro imenso de todos os cidadãos, pois as crianças mal cuidadas de hoje serão os adultos problemáticos de amanhã. Não há como fugir da humanidade se se vive em meio a ela.

Novamente, Pia Rebello (2016) dá aula sobre investimento na infância:

Quando investimos na criança em seus primeiros anos de vida, construímos seu capital humano. Permitimos que ela entre na escola, tenha êxito, avance para a educação secundária e se torne uma cidadã produtiva. (…)

Ao investir na primeira infância, começamos a ver benefícios para a família da criança. Vemos que os irmãos mais velhos podem frequentar a escola, pois não precisam mais cuidar do caçula. Vemos crescimento econômico porque as mães têm oportunidade de trabalhar e a capacidade de gerar renda.(…)

Em muitas partes do mundo, para as mulheres, quando elas têm um filho, é a 1ª vez que elas se enxergam como uma agente de mudança, que se traduz em outras formas de combater a pobreza.

Diante de todo esse cenário, Vera Cordeiro, médica e fundadora do Saúde Criança, questiona o por quê de não investirmos com força total no amparo da criança, se a ciência preceitua que o desenvolvimento de um adulto saudável depende do tratamento que ela recebeu na primeira fase da vida. Para ela, os governantes, a sociedade e os pais deveriam focar totalmente nesse cuidado.

Escrito por Sarita Deoli

Baiana, advogada e estudante de Psicologia e Psicoterapia Holística. Criou o Trago o Sol em 2017 para conversar sobre as relações do ser humano consigo mesmo e com o mundo. Acredita no valor do autoconhecimento e do conhecimento em si. Tem mais esperança do que antigamente e insiste que não está aqui só de passagem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: