A série The Affair, com cinco temporadas, tem como situação principal do enredo um caso extraconjungal. Através desse acontecimento, toda a trama se desenrola, demonstrando bem de perto as visões e sentimentos particulares dos personagens. Isso se deve a forma de gravação das cenas, que mostra um mesmo evento visto pelo ângulo de mais de um intérprete.

O episódio começa com a chamada do nome de um personagem. A cena rola pelo ângulo de visão dele e também são mostrados momentos íntimos deste, como o que ele pensa, quais decisões cogita tomar e qual escolhe, quais peculiaridades emocionais têm que lidar (família, passado, problemas pessoais) etc. Depois de alguns minutos, outro nome aparece na tela, anunciando o outro protagonista da cena, que é mostrada num contexto completamente diferente ou semelhante, a depender de quem for.

O traidor vê a sua amante como uma mulher sedutora, que lhe dá asas à criatividade. Já a amante se enxerga como sofredora, que está se envolvendo em um caso para fugir de seus próprios demônios. O traído é visto como durão, mas em seu íntimo nunca consegue superar a traição. A traída controla a tudo e todos, parecendo que deu a volta por cima, até que entre em colapso.

Todos julgam o traidor, mas não sabem como o passado foi abusivo com ele. Condenam a amante, mas não têm conhecimento sobre o histórico de abandono que ela sofreu ou de como se sente culpada pela morte do filho. A dicotomia do que ocorre interna e externamente é evidenciada sobre todos os personagens.

Entre protagonistas e personagens secundários, vemos como cada um reage a diferentes situações e como cada um observa o outro reagindo. Fica completamente claro o quanto a nossa mente é abstrata, conseguindo adaptar cada acontecimento às nossas próprias crenças e desejos. Através do que acredita, a pessoa sofre e se afunda ou sofre e se reinventa. Alguns permanecem com convicções inalteradas, outros se esforçam pra se adaptar às mais diversas situações.

Outro fator interessante é sobre a dificuldade que a sociedade tem de ter empatia com o próximo quando ele comete atos que são considerados errados no senso comum. Na série, vendo as ações e omissões sendo vividas por ambos os lados e em contextos integrais de vida, se questiona o que é realmente errado e o quanto é complexa a tomada de decisões para o ser humano.

Não há vilões ou mocinhos no seriado, todos são mostrados nus e crus, a parte boa e a parte ruim, como um indivíduo realmente é. Como telespectador, você acaba torcendo por todos os personagens porque há a formação de grande identificação pessoal com seres humanos que são “normais”.

É um alívio assistir algo sem perfeição ou polarização. É aconchegante não ter que pensar que alguém fazendo tal coisa é mau e outro fazendo outra coisa é bom. Não existe esse herói de filmes que só faz o bem, todos nós temos nossos defeitos. Não que não devamos nos aperfeiçoar sempre e buscar o bem-estar, mas também não temos que nos iludir sob as telas que transmitem semideuses inalcançáveis.

Fica a reflexão de que, na vida, a meta deve ser melhorar e não ser perfeito. O objetivo muito alto traz mais autocobrança do que resultados eficazes. Temos que nos espelhar nas boas características de pessoas comuns, do que é possível. Passo a passo, pedra a pedra, brisa a brisa.

Escrito por Sarita Deoli

Baiana, advogada e estudante de Psicologia e Psicoterapia Holística. Criou o Trago o Sol em 2017 para conversar sobre as relações do ser humano consigo mesmo e com o mundo. Acredita no valor do autoconhecimento e do conhecimento em si. Tem mais esperança do que antigamente e insiste que não está aqui só de passagem.

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