Brincadeira: Criar histórias com a participação de um adulto

História: “Fiz o que pude” de Lucília Junqueira de Almeida Prado

Ambas as situações selecionadas são preferencialmente para crianças que já sabem falar e/ou são capazes de entender a linearidade dos fatos. A idade em que isso ocorre vai depender de cada criança, mas sugere-se de 3-7 anos.

A brincadeira

A brincadeira intitula-se de modo muito simples “Criar histórias”, pois é possível ser realizada sob a dinâmica que o adulto e a criança escolherem. A ideia é que o(s) adulto(s) direcione a(s) criança(s) a criar uma história juntamente com ele(s). O adulto inicia a criação e cada participante vai complementando a história.

O objetivo é que haja uma unicidade na história e por isso se faz importante a presença de um adulto, que poderá conduzir melhor esse entendimento para a criança. Na infância, a depender da idade, o indivíduo ainda não compreende qual situação é conexa à outra e como criar ou contar uma história de forma clara, de forma que se faz muito proveitosa essa experiência.

Essa atividade é muito interessante, pois gera vários aprendizados cognitivos e psicossociais para a criança. Começando pelo próprio reforço ao vínculo afetivo com o adulto, pois é um momento que os dois (ou mais) se encontram no mesmo patamar de imaginação, no qual ambos são desafiados à criação.

Há estimulação da criatividade, compreensão sobre o momento de fala de cada um, entendimento sobre a conexão dos acontecimentos, identificação de expressões causadas pelo inesperado da elaboração. Também se faz a canalização da comunicação. Para as crianças que costumam falar mais, é um bom momento de aprender a organizar os seus pensamentos antes de colocar para fora; e para as que falam menos, é ótimo para se expressar o que pode não estar conseguindo através da fala tradicional.

É realmente muito estimulante essa brincadeira. A criança trabalha sobre os conceitos que já tem e aprende novos de uma maneira muito lúdica e fácil de absorver. Para incrementar, podem também vestir-se de acordo com o personagem que criarem, produzir cenários, usar objetos e tudo que possa ser adequado à interação.

A história

 E tão importante quanto criar histórias, é ouvir/ler histórias. A história selecionada é pequena, simples e com animais, mas representa a relação do ser humano com o outro e com o mundo. Através do mundo imaginativo, a criança consegue entender e criar valores individuais e sociais, para aplicar na sua própria vida.

A narrativa conta a história de um passarinho “sem graça” que vivia numa linda e equilibrada floresta. Todo ano, os animais que viviam naquele lugar se reuniam para compartilhar opiniões construtivas sobre o seu lar. Mas o passarinho não era muito participativo. Ao ser questionado porque era assim, ele respondeu: “Saber escutar os conselhos e as ideias dos outros também tem seu valor”.

Num dado momento, a floresta começou a pegar fogo e todos os animais que a amavam fugiram, menos o passarinho. Ele enchia o bico de água e levava ao fogo mesmo com o risco de se queimar e de não conseguir apagá-lo. Um dia o fogo cessou, os animais voltaram e novamente questionaram o porquê do pássaro agir assim e ele respondeu com muita naturalidade que fez o que estava ao seu alcance.

Com certeza uma única leitura dessa história não faz com que compreendamos todos os seus ensinamentos, nem para um adulto, nem para uma criança. Por isso é importante dar liberdade para a criança aprender uma ideia por vez, lendo a história em diferentes tempos e até mesmo idades.

Inicialmente a criança pode criar uma identificação com o passarinho, com os outros animais e com a floresta, estimulando a sua empatia. Do mesmo modo, ela vai imaginar o que ela faria, o mesmo que um, que outro, ou inventaria uma nova solução? Também entenderá, em dado momento, sobre os ciclos da natureza e da vida, um dia “flores”, no outro dia “fogo” e sobre ter ou querer ficar mesmo em meio ao “fogo”, o que remete à resiliência.

Outro aprendizado é sobre não julgar o coleguinha/amiguinho ou a si mesmo. Uma criança pode ser calada, mas ainda assim ela é muito importante na classe ou naquele ambiente determinado. É o caso do passarinho, que nunca falava, mas que fez muito pela floresta. Compreende-se que cada um tem o seu valor mesmo não fazendo o que todos fazem.

Uma das interpretações mais profundas da história é sobre fazer a sua parte, independente do comportamento alheio. Vivemos em comunidade e é muito importante que a criança perceba isso para não se tornar uma pessoa egoísta e que não saber cuidar dos lugares comuns. Ou seja, enseja um bom ensinamento sobre ser cidadão e dar a sua parcela de contribuição na sociedade mesmo quando há dificuldades individuais.

Conclusão

É extremamente importante para a criança criar, ouvir e ler histórias. O simples estímulo da imaginação, fala e atenção, por si só, já são grandes incentivadores do desenvolvimento cognitivo e da linguagem. Porém, como as histórias envolvem contextos, personagens e emoções, a brincadeira e os contos se tornam atividades muito completas, abarcando também o desenvolvimento psicossocial da criança.

Na criação de histórias é possível até acrescentar o desenvolvimento motor, pois, a depender da dinâmica e representação dos personagens, é possível pular, dançar, correr e dramatizar de formas físicas também. É um tipo de brincadeira que realmente traz um leque amplo de possibilidades.

Conforme aprendemos em todo o decorrer da disciplina nas aulas e materiais disponibilizados, com ênfase no documentário “O começo da vida”, sabemos que o que a criança desenvolve na primeira infância reflete em todo o percorrer da sua vida. Por isso é tão importantes usar as melhores ferramentas para ajudá-las nesse processo. E duas grandes delas são a brincadeira e a história.

Até o feto e o bebê se beneficiam com o afeto empregado na realização dessas ações e a simples observação já lhe traz novas informações. Apesar de ainda não saberem processar algumas situações, o seu cérebro faz um trabalho automático de retenção de dados que podem ser usados futuramente também.

A criança não é boba nem improdutiva, a criança é o que tem que ser na condição de criança. E isso envolve brincar, imaginar, criar e inúmeras outras ações que deveríamos continuar fazendo por toda a vida. A brincadeira e a história são tão importantes que se, enquanto adultos, utilizássemos mais dessas ferramentas, seríamos muito mais felizes e criaríamos crianças (futuros adultos) mais felizes ainda.

Referências

Aulas da professora Ana Vilela Brandino na disciplina Psicologia do Desenvolvimento I no curso de graduação de Psicologia ministrado na Universidade Católica do Salvador.

BEE, H.; BOYD, D. A criança em desenvolvimento. 12ª. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

PAPALIA, D.; FELDMAN, R. Desenvolvimento Humano. 12ª. Ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

PRADO, Lucília Junqueira de Almeida. Fiz o que pude. Disponível em: <https://pt.slideshare.net/jorgianecarvalho/fiz-o-que-pude> e <https://www.youtube.com/watch?v=QcQaTNGWFv4&gt;. Acesso 25 mai. 2020.

RENNER, Estela. O começo da vida. 2016.

Imagem: Kovacs Anna Brigitta

Escrito por Sarita Deoli

Baiana, advogada e estudante de Psicologia e Psicoterapia Holística. Criou o Trago o Sol em 2017 para conversar sobre as relações do ser humano consigo mesmo e com o mundo. Acredita no valor do autoconhecimento e do conhecimento em si. Tem mais esperança do que antigamente e insiste que não está aqui só de passagem.

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